"Hoje vi um vídeo muito bom sobre um garoto de uns seis anos, deficiente visual, que precisava escrever uma redação sobre as cores das flores. Ele estudava numa escola inclusiva, daí o tema. Como era de se esperar, ele teve bastante dificuldade, mas numa visita ao parque com a mãe, ele imaginou que as flores tivessem cores como os tipos de passarinhos...
Eu sorri ao ver aquilo. Porque dentro de mim vejo agora o amanhecer de um dia de amanhã. Sinto meus passos futuros no hoje. E ainda posso adivinhar minhas cores de meus dias longínquos. Cores não tão reais, não tão certas, como a cegueira do menino, porque por mais que a gente deseje e sonhe os dias, as coisas são como são, como precisam ser. Mas eu vejo no agora flores pintadas de pássaros sabiá, joão-de-barro e gaivotas tão amáveis, tão sentidas, secretamente guardadas no coração das lembranças desde o hoje. E amanhã, reconhecerei as minhas cores como quem, depois da espera de nove meses, reconhece no cheiro, no toque e na voz, pela primeira vez, aquilo que sempre existiu". ♥
Maísa Picasso
"Eu quero um pacto com a simplicidade. Limpar os desejos ocultos. Eu quero ser analfabeta das miudezas, dos disse-que-disse. Meus bolsos, meus bolsos se desfazem das pedras de uma vida inteira carregadas pro vôo das jóias."
Maísa Picasso
Maísa Picasso
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2.12.11
Até.
Sabe quando você sente que pode? É isso. Eu sinto. De lá de tão fundo, de lá onde não se pode esconder eu sinto que melhores dias virão. Não porque novas coisas vão chegar. Não é isso. É porque dentro de mim eu sinto uma força imensa, um brilho, uma conquista, sabe? Pode ser que seja sabedoria, pode ser que chamem de evolução, mas falta um passo. E eu nem tou mais me importando com os pequenos dias, com o que é preciso ser feito, com o ainda. Nada. Parece que eu tiro de letra ou adianto o dia em câmera lenta. Mas o lá longe eu vejo e sou eu ainda melhor. Eu só apuro a vista e vejo, não o ainda, mas o Até. ♥
31.10.11
Ainda que me diga "não" eu continuarei. Porque já não sou ou já não sei. Porque já é grande a tua existência em mim. Ainda que consumam, que escureçam, que partes dantes mergulhadas emerjam. Ainda que o norte troque de lugar e o passado ressurja, eu já não paro. Já não sei reparar os nãos e os pequenos acertos de hoje se firmam quando enxergo os grandes, grandes montes ali na frente. E o verde que se vai nascendo nas suas encostas e as flores e borboletinhas inteiras que me dão de herança até que eu seja inteira no mundo.
Não, não cabem papéis trocados, pés calçados, roupas vistosas. Não passam como passavam os mesmos dias. Que domingos e segundas são iguais e co-existem juntas, ao mesmo tempo. Não olho como antes, vidraças embaçam e limpam e meus óculos são cada dia menos sociais e mais inteiros.
As flores exalam em jardins diferentes. E se fecham murchas, às vezes, mas eu já não sinto. Porque por mais que eu resista, o gosto de que é vida sobrevém e mesmo que seja cimento e não meus pés de barro, ô, Nietzsche, e mesmo que aqui embaixo um carnaval aconteça, o ar da montanha, ainda rarefeito, é preferível, porque de lá, o mundo é toda a vista. E eu, eu enxergo longe. ♥
Escrevi esse texto faz tempo e hoje ele fez surgir em mim um amor enorme.
Escrevi esse texto faz tempo e hoje ele fez surgir em mim um amor enorme.
11.10.11
7.10.11
Força.
Força de mil homens, de um mundo inteiro.
Que meu machado quando cai no chão faz chuvas de flores.
E meu cantar é mágico feito cantiga de ninar.
Minha força está em meus olhos e meu sorriso
e minha alma inteira.
Adormece bandido e desperta fadas.
Sinos, sinos por toda parte.
Eu canto como corro no bosque
e, à medida que cresço, diminuo até ser criança.
Como nunca fui.
E por detrás do céu se há uma luz linda
de certeza e êxtase.
Já não vago. Já não corro.
Adormeço outra vez
para um mundo de reis e princesas
de era um vez e de final feliz". ♥
Maísa Picasso
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5.10.11
Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo. ♥
Cecília Meireles.
16.11.09
Me disseram que fazia tempo em que não escrevia poemas e contos lindinhos aqui. Foi doloroso ouvir isso, mesmo sendo a verdade. É que veio de quem tem olhar para apreciar, de quem vive de musa. E de uma pessoa que o apreciar realmente me importa.
Pensei e matutei o que dizer aqui ou sobre isto. E também justificativas são tão frágeis e sem valor... O que percebo é que minhas descobertas têm sido cada vez mais silenciosas. Que o meu olhar tem menos doçura pro mundo hoje e mais entendimento. Meus reboliços d'alma são mais estáveis. Já não tenho tantas perguntas ou inquietações.
Hoje, me atenho as respostas que encontro às tantas questões não respondidas que margeiam minha vida. São elas que gentilmente me conduzem a todas as manhãs. Encontrar respostas é perceber que os caminhos que tomamos são sempre os certos, porque vão adiante.
Já não tenho medo, já não tenho dúvidas, já não escuto monstros. Porque me acostumei que essas coisas são só o outro lado natural da vida e não dão sustos, porque não estão no armário. Correm soltos pelo quarto e às vezes vão se embora cansados de não ter com quem brincar.
Já não tenho tantos interesses, hábitos, gostos, necessidades. Nem ânsia pelo conhecimento. Percebo que eles é que lutam pela minha atenção, para serem afagados ou consumidos. Eu só existo com felicidade e harmonia. Se tenho pedras no bolso misturadas aos diamantes já não me preocupo. Que num leve assoprar elas voam embora.
Se não tenho escrevido com tanta paixão em desacordo aos olhares generosos dos gentis apreciadores, preciso que não se chateiem ou que busquem outras musas, já que não devo pedir desculpas. Mas se optarem por ler esse post e entenderem, sintam que é só o caminho de alguém que tem encontrado mais vida secreta no silêncio do que nas palavras.
E para você, meu querido amigo, irmão e amado, que tanto me agradou com suas visitas, seus olhares e seu caminhar junto ao meu, peço que considere meu pedido como um desejo para reflexão. Que essa musa, essa entidade extraordinariamente bela e estonteante, retratada inúmeras vezes como mulheres, anjos ou amadas possa ser incansavelmente achada ou buscada, perdida e encontrada, em você. Que assim, ela permanecerá para sempre atada, ungida e entranhada em ti, mesmo no mais recôndito espaço-tempo de teu ser.
5.10.09
Eu vou torcer, eu vou
Uma das últimas páginas de um livro que escolhi ler citava a impaciência como uma resistência ao aprendizado. Achei essa frase única. Da ansiedade que temos de ter tudo muito, ao mesmo tempo, agora. (E acabei de citar duas agências de propaganda :P)
O fato é que às vezes tenho fome e sede de mundo, de novo, de vida. Que o final das histórias ou as reviravoltas sejam o tom mais usado de uma música. E a gente combina passear de carro na orla, em um dia ensolarado, ouvindo Jorge Ben.
"Eu vou torcer pela paz. Pela alegria, pelo amor. Pelas moças bonitas. Eu vou torcer, eu vou.
Pelo inverno, pelo sorriso. Pela primavera, pela namorada. Pelo verão, pelo céu azul.Pelo outono, pela dignidade. Pelo verde lindo desse mar. Pelas moças bonitas eu vou torcer, eu vou".
Uma amiga terminou o namoro de cinco anos. Outra decretou greve aos chefes. Houve quem sofresse de calúnia no fim de semana. Quem perdesse o cachorro. Quem enrolasse para não ir ao cinema. E quem somou três meses de amor.
Nessas histórias navego assumindo parte de uma autoria coletiva. Embalada pela letra de Jorge Ben eu pulo etapas, impaciente, e sorrio as reviravoltas e peripécias das histórias do mundo. Um pouco eu, um pouco Lu, carlinha, martinha, sussu, gisarela "Pelas moças bonitas eu vou torcer, eu vou".
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28.7.09
Terêrê terêrê
Tem coisa mais chata de pegar busu depois de ir ao cartório? Pois comigo foi assim. Saltitante como a gente fica quando está de férias, fui ao NAJ, na Baixa dos Sapateiros, e depois engrossei a fila dos que esperam, esperam e esperam pacientemente um ônibus ao meio-dia de uma quinta-feira. Nisso chega uma mulher falando pelos cotovelos. Minha filha, cuidado com a bolsa. Ó paí ó, você pensa? Tá pedindo dinheiro é pra usar droga. É por isso que eu falo pra minha filha, estude, estude, não fique de safadeza com homem. Olhe pra essa meninada! Não quer nada, nada....Terêrê terêrê.
Certa feita, arrediada, falei do tempo. Falar do tempo é a sacada. Se tocou ela? Nada. Acendeu um cigarro, tragou, soprou e meteu: por isso que eu mandei meu homem ir embora há muito tempo. Eu a essa altura, já estava borboleteando, de olho num crepe de queijo da barraca da frente. E ela: mas você pensa? (abre a bolsa). Pensa que o ordinário queria ir? Queria nada (abre a bolsa de novo). Eu comendo crepe: a senhora quer uma ajudinha aí? Queria nada. Nem me ouviu e terêrê terêrê.
Mas Deus é testemunha que eu vou ser ainda feliz nessa vida. E tá faltando o que?, eu disse. O que do quê? Ta faltando o que para ser feliz? Ah, minha filha,(suspiro) ta faltando encontrar um companheiro... Omodeus, dava meu crepe todinho pra ela se não tivesse acabado. Botava no colo e passava talquinho. Ela só queria, só queria o que ela tanto reclamava.
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6.4.09
30.3.09
O alvo

Os riscos verde-azul do lápis pintam um amanhecer.
Depois de tantos dias de não.
Ensaia luz o dia...
E se estia dá para sair para brincar.
Por que esquecemos onde é o dentro e o fora da caverna,
E o que é sombra se passa por luz?
De quanta direção precisamos para sair da frente das pedras que miram o alvo?
Depois de tantos dias de não.
Ensaia luz o dia...
E se estia dá para sair para brincar.
Por que esquecemos onde é o dentro e o fora da caverna,
E o que é sombra se passa por luz?
De quanta direção precisamos para sair da frente das pedras que miram o alvo?
9.10.08
Papel mágico
Têm momentos que são de uma magia incrível. E aquele dia foi assim. Me adiantei em levantar que estava próximo do ponto de descer do ônibus. Foi quando ouvi as gargalhadas de uma menina de uns cinco anos. Ela ria muito a medida que uma outra criança mexia na bolsa em formato de cachorro no colo dela. O movimento fazia roçar as plumas sintéticas do bicho na pele da menina. Mais tarde notei que ela não enxergava e a cena me pareceu ainda mais pueril.
Foi no mesmo instante que notei dois adolescentes vestidos de boom imobiliário esperando o sinal abrir para distribuir panfletos, segurar placas...Dividiam um fone de ouvido, cantavam e dançavam durante os minutos em que não eram ignorados por vidros elétricos, caras feias e celulares com fone de ouvido e microfones.
Na mesma calçada, meninas que vendiam jornais trocavam figurinhas com os do imóveis e os dos automobilísticos. Eles só te pagam isso? Dá nem pra comprar uma avon. Tou pensando em ir no calçadão da fama sábado, você vai? (Leia-se ir a praça de roupa nova, cabelo alisado e descer com a mão no tabaco, que por sua vez entende-se quebrar até de manhã ou até arrumar um parceiro noturno).
Uma placa enorme presa nas costas de uma moça vestida de rosa me puxou de volta ao ônibus. A jovem de mochila de placa mais barato mais barato Extra distribuia as promoções da semana do mercado às pessoas do busão. Engraçado, que o contrário dos meninos que rebolavam na calçada qualquer melodia apropriada aos seus gostos, as pessoas abriam as janelas do ônibus e sorriam em troca do papel como serviço prestado. A alma da jovem de rosa ficava leve e a menina cega sorria ainda mais: Hum...é papel, né, mamãe? Enquanto pegava surpresa o novo presente do dia vindo misteriosamente de qualquer lugar mágico e caindo em seu colo. Só um panfletinho miúdo e um universo de mistérios escondidos nas dobras do papel que a menina enxergava.
Na mesma calçada, meninas que vendiam jornais trocavam figurinhas com os do imóveis e os dos automobilísticos. Eles só te pagam isso? Dá nem pra comprar uma avon. Tou pensando em ir no calçadão da fama sábado, você vai? (Leia-se ir a praça de roupa nova, cabelo alisado e descer com a mão no tabaco, que por sua vez entende-se quebrar até de manhã ou até arrumar um parceiro noturno).
Uma placa enorme presa nas costas de uma moça vestida de rosa me puxou de volta ao ônibus. A jovem de mochila de placa mais barato mais barato Extra distribuia as promoções da semana do mercado às pessoas do busão. Engraçado, que o contrário dos meninos que rebolavam na calçada qualquer melodia apropriada aos seus gostos, as pessoas abriam as janelas do ônibus e sorriam em troca do papel como serviço prestado. A alma da jovem de rosa ficava leve e a menina cega sorria ainda mais: Hum...é papel, né, mamãe? Enquanto pegava surpresa o novo presente do dia vindo misteriosamente de qualquer lugar mágico e caindo em seu colo. Só um panfletinho miúdo e um universo de mistérios escondidos nas dobras do papel que a menina enxergava.
23.9.08
Better Way
O poder de recomeçar tem me intrigado esses tempos. Que na vida a gente tem, a qualquer tempo, vidas em standby. Parece mesmo mágica quando a gente não se leva tão à sério. E o perdão soa tão fácil. Criança funciona bem assim. Levar porrada pelo melhor amigo, dividir as guloseimas e os maiores tesouros, a surra, o óleo de rícino. Tudo isso vira história a dois. Que fazer quando se é por extenso o outro? Não muito.
Essa perspectiva me encanta. Que a gente pense que a vida é mais plural. Menos banho de poça d'água. Mais risadas no meio da rua. Mais em bando. Bicicletas de cinco pessoas. Concurso de besteiras. Mais maluquices. Festinhas de crianças com brigadeiro e filhotinhos de cachorro. Quebra-cabeça, meu amor, e motas em miniaturas.
E dizem que achar a si mesmo e a Deus são caminhos de solitude. Mas quantas resignificações e alegrias, quanta solidariedade e compaixão, tanto amor e amor e amor quando passamos a ser mais do que um. Eu acredito nisso. Que o que eu faço é parte de você. Que suas descobertas serão manual para mim amanhã. E minhas alegrias poderão ser compartilhadas porque você existe.
E esse cheiro de felicidade no ar é porque eu reconheço os rastros que você me deixa. E como é lindo o chão que você pisa.
24.7.08
Dia do adeus
Um par de coisas às vezes se esconde de minha compreensão. Tal como uma frestinha de luz que corre pela casa seguindo o tempo, ela reviravolta.
Chuvas são engraçadas de ver cair. E o cheiro que deixa nas coisas, são de uma pausa, quando as casas saem de casa para ganhar o tempo.
Essas músicas que escuto dão uma nostalgia ao contrário, que me lembram o que ainda falta existir. E eu vejo como coisas que não existem podem ser tão vivas como Baleia, do Graciliano Ramos, Macabéia de Clarice, Caeiro de Pessoa. São todos eles Ramos, Clarice e Pessoa Baleias, Macabéias e Caeiros? A resposta me foge. Também não sei precisar como aprendi as coisas. Mas nunca lembrei de tantas coisas que me ocupo em aprender desnecessariamente. Quantos sentidos devemos atribuir às coisas, às pessoas, à vida para tudo fazer sentido? E eu que pensei que o que mais fazia sentido era desatribuir, agora que me ensinaram a vestir, sinto saudade de não carregar tantas pedras. Já imaginou como seria a vida se nossos bolsos estivessem cheios de pedras preciosas e flores? Seríamos como crianças? As crianças são bons começos de alma. Ou destinos de alma.
Lembro das tardes que passava na casa de minha avó na infância. A mágica que esquecia dos deveres decorebas da escola. Da escola, lembro das minhas coleções de papel de carta que enchiam os olhos das meninas de amizade. Pirulitos vermelhos na porta da escola, na mão de Abebeu, demoraram pouco. As drogas chegaram aos pirulitos.
As aves voam mais alto em dias de sol, mas em alguns dias de chuva são dias exatos para sair e voar. Quando ninguém está olhando e de repente o mundo é só seu. E a chuva destranca a porta e faz sorrir um sol de dentro, no centro de tudo. E os homens de verdade podem tirar o chapéu e os bigodes falsos. Os guarda-chuvas ficam em casa, o vento assopra uma página inteira do livro e num tempo capaz de guardar um segundo, embaixo da grama e da terra, no mundo de cabeça para baixo, é dia de festa no céu - ou na terra, que é de ponta a cabeça. E nesse suspiro de tempo passa uma manada, uma banda inteira, um funeral. E dá-se adeus para sair.
1.5.08
Ainda que me diga "não" eu continuarei. Porque já não sou ou já não sei. Porque já é grande a tua existência em mim. Ainda que consumam, que escuresçam, que partes dantes mergulhadas emerjam. Ainda que o norte troque de lugar e o passado ressurja, eu já não paro. Já não sei reparar os nãos e os pequenos acertos de hoje se firmam quando enxergo os grandes, grandes montes ali na frente. E o verde que se vai nascendo nas suas encostas e as flores e borboletinhas inteiras que me me dão de herança até que eu seja inteira o mundo.
Não, não cabem papéis trocados, pés calçados, roupas avistosas. Não passam como passavam os mesmos dias. Que domingos e segundas são iguais e co-existem juntos, ao mesmo tempo. Não olho como antes, vidraças embaçam e limpam e meus óculos são cada dia menos sociais e mais inteiros.
As flores exalam em jardins diferentes. E se fecham murchas, às vezes, mas eu já não sinto. Porque por mais que eu resista, o gosto de que é vida sobrevém e mesmo que seja cimento e não meus pés de barro, ô, Nietzsche, e mesmo que aqui embaixo um carnaval aconteça, o ar da montanha, ainda rarefeito, é preferível, porque de lá, o mundo é toda a vista. E eu, eu enxergo longe.
9.4.08
Os dias de ausência já foram dar lugar as férias.
Mas não se engane. Não é tempo de meninices ou margaridas coloridinhas.
Continuam ali, no mesmo lugar,
tudo que eu sempre fui, tudo que sempre é meu.
Todas as conquistas, os chamamentos, a vida que pulsa na esquina...
As flores que ainda não vejo são maiores que todas.
Meus passos são curtos, mas firmes.
Não vôo como pensei, nem mesmo corro.
Só caminho e por vezes até me arrasto, minha marcha é firme.
Ainda não me enxergo, mas também não há reflexo.
Não pousam borboletas, mas minha vista já começa a alcançar
O que me espera por onde vou, os braços que vão comigo.
Não existe saudade e tudo é novo.
Meu olhar é de despedida e de primeira vez.
Que para onde vou há esperança e o velho que ainda sou.
31.1.08
Quantas surpresas nos guardam o final da reta?
Caminhos dourados, heranças e legados?
Flores pelo caminho
Nuvens cor de tangerina.
Quantas cores nos esperam o pôr do sol?
Sabores em manhãs?
tibiliscos em qualquer reta para a vista.
Festas, plumas, música da alma?
Roupas de menina num domingo pé descalço.
Margaridas coloridinhas
Recreios, Sorrisos, mãos que tecem o infinito.
Sorte ou esperança?
venturas, escolhas, destino?
Profecias, anjos e alma.
Risada larga
Peito farto
Restituição.
17.12.07
A bolsa
Ana é daquelas moças simples de um jeito inverso. É simples quase esquecida, sem ser para a maioria das pessoas. Passa pelo mundo sem cor, calada, recolhida. Ana é a moça da limpeza onde trabalho. Quando eu chego ela já fez meia roça sozinha e mesmo assim quase não fala. É lembrada quando limpa os cantos da sala e sai recolhendo todos os papéis que encontra, os que prestam e os rascunhos, os lembretes e os imperdíveis viram todos uma coisa só para ela. E toda a empresa rapidamente nota. "Ana passou por aqui"...E ela passa mesmo e leva tudo.
Me lembra muito Macabéia, que nem vive, só respira e a maior aspiração é comer desodorante de "colherinha". De vez em quando ouço uns respiros fundos da cozinha. Que foi, Ana? Nada, mulher, oxe. Eu acho graça. Fico aqui concentrada e de pausas em pausas me lembro de chamá-la pra ouvir uma música, ver uma mensagem. Ela adora mensagem, todas. Com música, ilustrações, ursinhos, corações, poemas...Metade de minha hora de almoço é dela, a gente senta junto pra mexer no computador, que ela estuda pra entrar na faculdade, mas tem esquecimento de como futucar direito a máquina. E vamos vendo juntas coisas de vestibular, notícias, oportunidades de emprego.
Por isso no dia que cheguei com a bolsa nova, foi a Ana quem fez melhor leitura de minha alma. Era uma bolsa diferente, florida e cheia de cores, de uma meninice apaixonante.
Era um respiro no dia corrido, no hábito velho de às vezes carregar mais do que é preciso. De acostumar com as cores cinza e preto marrom discreto da vida, calha de escorrer a água da chuva impedida.
Como é linda. Hum...é nova. Tá metida, mulher. Ui, que chique. Fazendo compras hein?! O mundo inteirinho de homogeneidade parecia soprar.
Quase que nem olhava, passando pano úmido para lá e cá na madeira da mesa branca, música e barulho de redação, ironias e comentários de jornal....Ana falou.
Essa bolsa é toda você, Maísa, tem cara é de felicidade.
Levantei e dei um abraço apertado. Ninguém entendeu nada e nem precisava. Só a felicidade de encontrar uma outra mão que entrelaça certo na mão da gente, que consegue ver todas as cores que há por detrás do nublado de uma tarde inteira na janela.
23.11.07
Milágrimas
" Em caso de dor ponha gelo. Mude o corte de cabelo. Mude como modelo. Vá ao cinema, dê um sorriso, ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo. Se amargo foi já ter sido, troque já esse vestido, troque o padrão do tecido. Saia do sério, deixe os critérios, siga todos os sentidos, faça fazer sentido. A cada mil lágrimas sai um milagre.
Em caso de tristeza vire a mesa, coma só a sobremesa, coma somente a cereja. Jogue para cima faça cena, cante as rimas de um poema. Sofra penas viva apenas. Sendo só fissura ou loucura, quem sabe casando cura, ninguém sabe o que procura. Faça uma novena, reze um terço, caia fora do contexto, invente seu endereço. A cada mil lágrimas sai um milagre.
(Alice Ruiz)
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